Os 88 templos de Shikoku

Shikoku é a menor das 4 principais ilhas do Japão e guarda um imenso tesouro: uma rota que passa por 88 templos budistas. Conhecida como Shikoku Henro ou como O-Shikoku-San, são 1.400 km que atravessam as 4 províncias da ilha, entre montanhas, praias, campos, cidades e vilarejos, percorridos a pé ou em bicicleta. Existe ainda a opção de fazer o percurso de ônibus e trem ou de carro.

Diz a lenda que a ilha era governada por Emon Saburo, um senhor rico e poderoso, mas de coração muito duro. Certo dia, um monge bateu à sua porta pedindo por comida e logo foi expulso da casa. A cena se repetiu pelos próximos dias até que no oitavo Saburo ficou furioso e quebrou a tigela do monge em 8 pedaços. Depois disso, o monge não retornou mais. Curiosamente, no dia seguinte um dos filhos de Saburo vem a falecer. Em pouco tempo, o segundo também se vai. E assim aconteceu com os 8 filhos do governador, que se viu sem herdeiros para continuar sua família.

Desesperado, saiu à procura do monge para pedir perdão. Caminhou por anos e o encontrou quando já estava muito debilitado. Saburo foi perdoado e como último desejo, pediu para renascer como governador da ilha novamente, para que pudesse ajudar as pessoas e se redimir de toda crueldade praticada naquela vida. O monge escreveu algo em uma pedra e a colocou na mão de Saburo antes de sua morte. Meses depois nasce o bebê que viria a ser o futuro governador, com a mão fechada. A criança segurava uma pedra com os dizeres: “reencarnação de Emon Saburo”.

Acredita-se que o monge da lenda é Kobo Daishi, o fundador do Shingon, o budismo esotérico japonês, que percorreu os 1.400 km para seu próprio treinamento. Ao concluir o percurso se livrou de 88 paixões terrenas, alcançando a elevação espiritual.

Uma tigela quebrada em 8 pedaços, 8 filhos, 8 dias, 88 templos, 88 paixões terrenas… o número 8 é sagrado no budismo e representa o fim de um ciclo. A morte também está presente na lenda e representada durante a peregrinação. O próprio nome “Shikoku” pode ser traduzido como 4 países ou como país da morte. Os reais peregrinos deste caminho se vestem de branco, a cor do luto no oriente.

Para nós, brasileiros, pode parecer um pouco assustador, mas o significado é profundo e muito conectado ao espírito de quem o percorre. A morte representa o fim de um ciclo e abre caminho para que um novo possa começar. É uma jornada de autoconhecimento por paisagens inspiradoras em que os peregrinos buscam renovação, terminar fases e dar início a uma nova vida.

Os principais aeroportos da ilha ficam em Takamatsu, Tokushima, Matsuyama e Kochi, com vôos diretos de Tokyo e Osaka. Por trem, é preciso pegar o shinkansen da linha JR Shin-Osaka até Okayama e seguir para Takamatsu, pela JR Shikoku Railway Company.

(Imagem: Lanternas no Ryozenji, o templo número 1 | Crédito: zrim via Visual Hunt / CC BY-NC-ND)

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